terça-feira, 6 de maio de 2014

Por que um cachorro não é um gato?

Adotamos Frida e vamos levá-la para o Brasil quando voltarmos!
Hoje  foi a terceira vez que fomos à petshop na hora do almoço, ontem para outro banho e hoje para as vacinas e para o tratamento das coceiras que ela tem derivadas das picadas de pulga (dermatite por picada de pulga) e do cheiro ruim (glândulas anais).
Depois de alguns "acidentes", hoje foi o primeiro dia em que ela não sujou nada.
Ontem eu estava saindo com ela que urinou no lobby do meu andar.  Prendi-a na porta, busquei papel, saco de lixo e desinfetante, limpei o chão e entrei na área das escadas para jogar esse lixo (no saco).
Antes fechei a porta porque a última coisa que eu queria era ter que descer as escadas no escuro atrás dela.  Já tomei dois tombos em escadas: em um quebrei o pulso, em outro "desci" um andar no escuro e torci o pé.
Pois bem, fechei a porta e quando fui abri-la, ela estava trancada!!!
Havia me esquecido que este é um edifício "inteligente" de alta segurança!
Eu, sinceramente, me apavorei.  Não tinha celular comigo, o que fazer?
Comecei a gritar "ayuda", "ayuda" cada vez mais forte.  Frida começou a latir muito forte e a vizinha me salvou.
Três dias depois e eu me vejo acordando cedo para levá-la para "passear" - um eufemismo para dizer ir ao banheiro - e saindo outras três vezes ao dia.
Eu me consolo pensando que estou, enfim, tomando o sol que o médico me recomenda para prevenir a osteoporose, gastando calorias que me sobram, tendo contato com gente na rua que pára para brincar com ela.
Com tudo isso eu fico pensando, por que um cachorro não é um gato?
Sempre tive gatos e nunca precisei me preocupar com o horário da evacuação deles, ficar calculando a hora em que dei comida para saber quando sair com eles.
Caminhar levando um gato pela coleira é inimaginável e mais ainda pensar que ele iria cheirar TUDO ao redor, de urinas e fezes que outros animais deixaram a solas de sapatos dos transeuntes!
Também vou ter que me acostumar a ter alguém SEMPRE ao meu lado, que fica na porta do banheiro com medo de eu desaparecer.
Será que isso é coisa de animal abandonado ou todos os cachorros são assim?
Enfim, um cachorro não é um gato e a Frida é uma cadela.
Que se deita aos meus pés enquanto eu escrevo e dorme satisfeita.
Aceitação e amor incondicional, o meu por ela e o dela por mim.

Regras básicas para não adotar um cachorro


Foi tudo muito rápido.
Na verdade não pensamos muito.  Era sábado e estávamos voltando de Puebla para a Cidade do México muito felizes com os passeios e a compra de peças em talavera (uma cerâmica especial muito bonita).
Paramos em um posto de gasolina para tomar um café.
O Ayrton chamou minha atenção para uma cachorrinha preta, com o pelo sujo de barro e a expressão  esfomeada e me pediu que comprasse algo para ela comer. 
A cadelinha devorou o peito de peru enquanto a mulher da limpeza do banheiro nos dizia que muitas pessoas abandonavam seus cachorros ali.
Regra básica número um para quem não quer adotar um cachorro: não alimente os animais.
Os pulos de contente, o olhar de gratidão e um marido que ama cachorros, de repente lá estava eu ajudando a mulher do posto a dar banho na cadelinha com uma mangueira na grama, secando-a no secador do banheiro, embrulhando-a em um saco de lixo e entrando no carro para levá-la para casa.
Muito dócil, ela se entregou e dormiu a viagem inteira.
Como explicar essa decisão que nem decisão era?
Claro que os programas do Animal Planet que havíamos assistido na véspera haviam nos influenciado.
Sim, nós queríamos ter um animal quando voltássemos para o Brasil já que vamos viver em uma casa, mas como o Ayrton queria um cachorro e eu um gato, muito provavelmente não teríamos animal algum.
Até que essa cadelinha apareceu na nossa frente.
Moramos em um apartamento pequeno, nos comprometemos com o dono a não ter animais, viajamos muito, eu nunca quis um cachorro, enfim, já com ela no colo, decidimos que só iríamos resgatá-la, cuidá-la e depois doá-la para alguém.
Eu disse "decidimos"?  Na verdade não decidimos nada, fomos agindo por impulso, pensando em possibilidades, mas a única certeza que tínhamos é que essa cachorrinha estava nos cativando a cada momento, apesar dos obstáculos.
Na dúvida, íamos conversando na estrada:
- Não vamos ficar com ela, mas se fícassemos, que nome ela teria?
Pensamos primeiro em chula (pronuncia-se tchula) por causa da expressão "que chula es Puebla" querendo dizer bonita, linda, etc.  Não, não! Em português chula    "é uma expressão que classifica aquela pessoa que é ordinária, que é rude, grosseira, burlesca. É um adjetivo feminino que também é usado para qualificar algo que tem pouco valor, que é comum, que é rústico ou que vale uma ninharia."  Definitivamente NÃO!
E Puebla então, já que havíamos gostado tanto da cidade.
Hummm, existe uma rivalidade entre os chilangos da Cidade do México e os pueblanos.
Pensamos então em Chila (tchila) de chilanga.
Regra número dois: não dê nome a um animal se você não quiser adotá-lo.
Enquanto discutíamos o "possível nome da cachorrinha que nós não vamos querer", Ayrton dirigia se coçando só de imaginar a quantidade de pulgas (ele é alérgico) e fomos direto para uma petshop em busca de um banho.
Já não havia horário para banho, mas fomos atendidos por duas veterinárias fantásticas que a examinaram e constataram que ela tem cerca de um ano, é, aparentemente, saudável e estava com muitos nós no pelo onde as pulgas se alojariam a não ser que a tosassem.  Elas mesmas fizeram a tosa em seu dorso só deixando as patas e o focinho com sua linda pelagem negra e brilhante.
Aplicaram uma injeção para parasitas (inclusive pulgas), recomendaram uma ração, um shampoo anti-pulgas e nos pediram que voltássemos em uma semana para as vacinas.
Compramos rapidamente uma coleira, uma roupinha, a ração e voamos para casa, para o banho.
Vou deixar registrado que eu sempre achei roupinha para cachorros a coisa mais ridícula do mundo, mas a veterinária foi quem recomendou pelo frio e falta de pelos.
No estacionamento a cachorrinha escapou da coleira que estava grande demais e fugiu entre os carros.  Com a ajuda de várias pessoas que não faziam idéia das pulgas, consegui capturá-la.
Regra número três: se o animal fugir, deixe que se vá! Quando você se vê desesperada correndo atrás dela com medo que morra ou suma, se dá conta que já tomou a decisão: você vai ficar com ele.
Chegando em casa, nova operação emergência.
Onde banhá-la? No meu chuveiro, é claro!
Entrei de roupa e tudo e passei o shampoo duas vezes com cuidado para não cair no olho.
Quando a coloquei no tapete do banheiro ela se pôs a esfregar o focinho no chão e eu vi uma pulga pular.  Droga!
Arrumamos um lugar para ela no banheiro de serviço e ela ficou muito bem instalada (e trancada porque não havia garantia de que as pulgas haviam desaparecido).
Ela chorou ao se ver trancada e longe da gente, mas eu fiquei do lado de fora do banheiro explicando "O Poder do Agora" para ela com a voz mais calma e relaxante que pude encontrar : agora você está abrigada e alimentada.  Não se preocupe com o amanhã, tudo vai dar certo.
Como o choro persistiu, colocamos um som para que ela dormisse ouvindo rádio.
Funcionou!  Antes de dormir, eu tive que lembrar ao Ayrton o "Poder do Agora". Estava exausta demais para discutir os prós e contras de ficarmos com ela e dormi profundamente.